Um século a remar com identidade

Fundado em Valbom, Gondomar, a 4 de julho de 1925, o INFANTE nasceu da vontade de um grupo de valboenses de criar uma coletividade ligada ao rio, ao desporto e à formação humana. Ao longo de cem anos, ajudou a definir o território e a comunidade, transformando-se numa referência incontornável do remo português, sem nunca perder a ligação profunda às suas raízes locais, à sua gente e ao Douro que o viu nascer.

A história do INFANTE não se explica sem Valbom nem sem o rio Douro. Antes de ser palco de treino e competição, o Douro foi fonte de sustento, de circulação e de identidade para as populações ribeirinhas. A tradição náutica e piscatória de Valbom, marcada pelos barcos valboeiros, pela vida da Ribeira de Abade e por uma relação íntima com a água, criou o contexto perfeito para o surgimento de uma coletividade como o INFANTE. O Clube nasce, por isso, não como realidade isolada, mas como prolongamento natural da cultura local, do associativismo valboense e da vocação náutica de Gondomar.

1. A fundação: de um sonho local a uma obra duradoura

A documentação histórica confirma a data de 4 de julho de 1925 como momento fundador do clube, inicialmente com a designação de Escola Naval Infante D. Henrique. As primeiras direções e as entidades oficiais vieram mais tarde validar formalmente essa origem. Entre os nomes associados ao núcleo fundador surgem Manuel dos Santos Almeida Bessa, Américo Pereira, Joaquim Gonçalves de Castro e Serafim de Almeida Ramos, a par de outras figuras dos primeiros tempos que ajudaram a consolidar o projeto. O que começou como iniciativa de uma “meia dúzia de aficionados”, reunidos no ambiente associativo valboense, depressa ganhou corpo e ambição.

Nos anos iniciais, o Clube organizou-se com meios modestos, mas com grande energia. A imprensa local já em 1927 relatava os esforços da comissão administrativa para desenvolver uma agremiação dedicada “a todos os sports”, com especial enfoque no remo e na natação. A Escola Dramática e Musical Valboense cedeu espaço para reuniões, os sócios eram chamados a colaborar, e o lançamento do primeiro barco era visto como objetivo mobilizador. Em 1929, o INFANTE apresentou-se publicamente com a sua primeira flotilha, composta por quatro barcos, num momento que assinalou a sua afirmação perante a comunidade.

2. De Escola Naval a Clube Naval

A consolidação do projeto trouxe também uma evolução institucional. Nos primeiros anos da década de 1930, a designação “Escola Naval” começou a dar lugar, progressivamente, a “Clube Naval”, refletindo uma identidade mais afirmada e uma estrutura mais estável. Ao mesmo tempo, cresciam as preocupações com sede própria, espaço para embarcações, melhores condições de treino e afirmação competitiva. O INFANTE deixava de ser apenas uma promessa local para se tornar um clube com ambição desportiva e visão de futuro.

Ao longo da sua história, o Clube acolheu várias modalidades, entre elas a natação, o polo aquático, o basquetebol, a pesca desportiva e o ténis de mesa. Ainda assim, foi o remo que acabou por prevalecer e definir de forma mais clara o seu percurso. A partir da década de 1960, o INFANTE começou a afirmar-se de forma mais consistente no panorama nacional, iniciando um caminho de crescente reconhecimento, títulos e prestígio.

3. Um clube de competição, trabalho e superação

A história desportiva do INFANTE foi construída passo a passo, muitas vezes em condições precárias, mas sempre com enorme capacidade de superação. Durante décadas, o clube viveu entre hangares modestos, postos náuticos sujeitos às cheias do Douro e limitações materiais que exigiam engenho, dedicação e espírito de sacrifício. Ainda assim, foi desse contexto que emergiu uma das maiores potências do remo português. A conquista do primeiro Campeonato Nacional de Fundo sénior marcou simbolicamente essa passagem para um novo patamar competitivo, abrindo caminho a décadas de crescimento sustentado.

Esse crescimento tornou-se particularmente visível a partir dos anos 1970 e consolidou-se nas décadas seguintes. O clube passou a somar títulos nacionais, vitórias em regatas de referência e forte presença em vários escalões. Em 2013, o INFANTE sagrou-se Campeão Nacional de Clubes pelo terceiro ano consecutivo, com pontuações expressivas em masculinos e femininos. Já na época 2024/25, alcançou o 14.º título nacional, venceu o Ranking Nacional Geral, o Ranking Nacional de Remo Indoor, o Ranking Nacional de Remo Jovem e o Ranking Nacional de Para-Remo, confirmando a sua posição no topo do remo português.

4. Um Clube de Pioneiros: no Remo Feminino e no Remo Adaptado

Reduzir o INFANTE a um palmarés seria sempre injusto. O Clube foi, e continua a ser, uma verdadeira escola de vida, onde o desporto surge associado à disciplina, ao trabalho em equipa, à resiliência, ao sentido de pertença e à formação de pessoas. Ao longo de gerações, muitos jovens encontraram ali não apenas um espaço para treinar, mas uma casa, uma rede de apoio e um lugar de crescimento humano. Essa dimensão comunitária é uma das marcas mais fortes da identidade henriquina.

O INFANTE destacou-se também pelo seu papel pioneiro no remo feminino e no desporto adaptado. Em 1971, a sua tripulação feminina sagrou-se campeã regional e nacional em shell de 4 com timoneiro, numa fase em que o remo feminino ainda dava passos importantes em Portugal. Pouco depois, atletas do clube representaram com honra o país em Cognac, em França, contribuindo para a projeção internacional do remo feminino português.

Já em 1994, um protocolo com o Centro de Reabilitação da Areosa abriu caminho à prática de remo adaptado (pararremo) no Clube, com utilização regular das instalações por pessoas com deficiência e criação de condições concretas para uma prática mais inclusiva.

5. Das instalações precárias a um centro de referência

A evolução do INFANTE também pode ser contada através dos seus espaços. De garagens, armazéns e estruturas improvisadas, o Clube foi construindo ao longo das décadas melhores condições para acolher atletas, embarcações e atividade regular. Em 1960 inaugurou a sua sede social no centro de Valbom. Após as cheias de 1962, surgiram novas respostas para o posto náutico, com destaque para a generosidade de Rosa Branca Moutinho, que ofereceu terreno para expansão das estruturas. Em 1986 foi inaugurado um segundo hangar, reforçando a capacidade operacional do Clube.

O grande salto aconteceu já no século XXI. No contexto do Programa Polis e da requalificação ribeirinha de Gramido, o antigo posto náutico e hangares deram lugar ao novo Centro de Desportos Náuticos, inaugurado em 2009. O equipamento passou a integrar hangar, ginásio, tanques de remo, balneários, espaços sociais e melhores condições de apoio à prática desportiva. As novas instalações contribuíram decisivamente para o crescimento do clube e para a sua maior visibilidade pública, consolidando o INFANTE como referência nacional não só pelos resultados, mas também pela qualidade das suas condições de trabalho.

6. Um século depois, o INFANTE continua a remar para a frente

Chegar aos 100 anos com vitalidade, prestígio e ambição não é obra do acaso. É resultado de gerações de atletas, treinadores, dirigentes, funcionários, sócios, famílias e apoiantes que fizeram do INFANTE muito mais do que um clube desportivo. Fizeram dele uma instituição com memória, identidade e futuro. Um clube capaz de honrar a tradição, mas também de se renovar; de cultivar a excelência competitiva, sem abdicar da sua missão formativa e social; de olhar para o Douro como origem, mas também como horizonte.

Ser INFANTE é, afinal, isso mesmo: pertencer a uma história centenária de trabalho, coragem e visão. Uma história feita de remadas, de desafios superados, de títulos conquistados e, acima de tudo, de pessoas. Uma história que começou em 1925, em Valbom, e que continua hoje, com a mesma vontade de bem fazer: o Talant de Bien Faire.